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Doença do carrapato em cachorro: melhorar não é curar

Ele melhorou sozinho depois do carrapato e adoeceu de novo meses depois, e quase nunca é o caso de a doença ter voltado

· 10 min de leitura

cachorro caramelo deitado no tapete da sala, cabeça apoiada no chão entre as patas, olhos abertos e parado

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Neste artigo

Doença do carrapato em cachorro não é uma coisa só, e o mal-entendido começa aí: o nome popular cobre mais de um problema, com causadores diferentes e exames diferentes. O que custa mais caro, porém, vem depois. O cachorro pode melhorar sozinho e continuar infectado (Unesp, 2013).

cachorro de pelo rústico deitado na caminha, acordado e imóvel, olhando para a frente sem se levantar
Cachorro quieto e sem disposição, um dos primeiros sinais descritos no texto. Ilustração gerada por IA

Você tirou os carrapatos num domingo. Na semana seguinte ele ficou meio quieto, comeu menos, e depois voltou ao normal sozinho. Agora, meses depois, ele está apático de novo, e ninguém mais lembra daquele domingo.

O objetivo aqui não é te ensinar a resolver em casa, porque isso não existe nesse caso. É te dar o que o veterinário precisa ouvir de você, e o que você precisa entender para não parar no meio do caminho achando que acabou.

O que é a doença do carrapato em cachorro?

Doença do carrapato em cachorro é o nome popular de mais de um problema transmitido pelo mesmo carrapato, e os dois mais comuns no Brasil são a erliquiose e a babesiose (Revista da FAG).

A erliquiose vem de uma bactéria, a Ehrlichia canis, que se multiplica dentro das células de defesa do cachorro, nos linfonodos, no baço e na medula óssea (Revista da FAG).

A babesiose vem de um protozoário, que ataca as células vermelhas do sangue e as destrói mais rápido do que o corpo consegue repor (UNIBRA, 2022).

Saber qual das duas é não é preciosismo de bula. O exame que confirma uma não enxerga necessariamente a outra, e o que se usa em cada caso também muda.

Por isso, quando o veterinário disser “erliquiose”, não pense que ele está falando de outra coisa. É o nome real daquilo que você procurou.

O nome, porém, costuma chegar por último. O que chega primeiro é um cachorro diferente do de sempre.

Quais são os sintomas da doença do carrapato em cachorro?

Os sintomas da doença do carrapato em cachorro são discretos no começo. Num levantamento com 23 cães atendidos numa clínica do sudoeste do Paraná, os mais encontrados foram apatia, perda de peso, feridas no corpo, palidez das mucosas e alterações nos olhos (Revista da FAG).

pote de ração cheio no chão da cozinha e, ao fundo, o cachorro deitado de costas para o pote
Ração intacta no pote, que é como a falta de apetite aparece em casa. Ilustração gerada por IA

A lista mais ampla descrita na mesma pesquisa inclui febre, falta de apetite, vômito, diarreia, manchas avermelhadas na pele e sinais neurológicos, como convulsão e falta de coordenação.

Repare no que não está nessa lista: nada que grite. É um cachorro mais quieto, que come menos e dorme mais, num mês em que fez calor.

O que dá para ver em casa

Dois sinais aparecem sem precisar de exame, e são mais típicos da babesiose: a gengiva amarelada e a urina escura, que aparecem quando as células vermelhas estão sendo destruídas (UNIBRA, 2022).

Levante o beiço e olhe a gengiva na luz do dia. Ela deve ser rosada. Gengiva branca, acinzentada ou puxando para o amarelo é consulta hoje, não amanhã.

A mesma pesquisa que lista os sinais da erliquiose avisa que vários deles não são exclusivos dela, e aparecem em várias outras doenças (Revista da FAG). É por isso que ninguém fecha esse caso olhando o cachorro.

Nada disso, porém, explica a parte que mais confunde quem já passou por isso: o cachorro que melhora sem ninguém ter feito nada.

Por que o cachorro melhora sozinho e adoece de novo meses depois?

O cachorro melhora sozinho porque os sinais da fase aguda podem sumir sem tratamento. Só que eliminar a bactéria é difícil: ele segue infectado e entra na fase subclínica, que dura meses ou anos sem sinal nenhum (Unesp, 2013).

Melhorar, aqui, não é o mesmo que ter curado.

cachorro caramelo correndo na grama do quintal, orelhas para trás e boca aberta

São três momentos, então, e só o primeiro e o último aparecem:

  • a fase aguda, com os sinais que fizeram você desconfiar
  • a fase subclínica, em que o cachorro parece bem e o exame de sangue já mostra alteração
  • a fase crônica, quando os sinais voltam, agora com o corpo desgastado por dentro

É por isso que tanta gente descreve isso como algo que “voltou”. Na maior parte das vezes não voltou. Nunca foi embora.

E pegar de novo é outra coisa, que também acontece. O cachorro curado pode ser picado por outro carrapato e adoecer outra vez, do zero. Os dois casos parecem iguais de fora, e quem separa um do outro é o exame, não o palpite.

Isso muda o peso da pergunta que todo mundo faz assim que ouve o nome.

Doença do carrapato em cachorro tem cura?

Doença do carrapato em cachorro tem tratamento, e o que mais pesa no resultado é começar cedo. Intervir a tempo evitaria os casos, comuns no Brasil, de erliquiose crônica descoberta só quando a insuficiência renal crônica já se manifestou (Unesp, 2013).

Leia essa frase devagar, porque ela é o argumento inteiro deste artigo. O problema do cachorro que melhorou sozinho não é o mês seguinte. É o rim, anos depois.

O que se usa, por quanto tempo e com que exames de controle são decisões do veterinário, e mudam conforme o caso e o estado do cachorro. Não existe prazo padrão que sirva para todos.

O que você leva daqui vale mais que o nome de um comprimido: não pare quando ele melhorar. Quem diz que acabou é quem está acompanhando.

Para chegar a esse ponto, no entanto, alguém precisa primeiro confirmar do que se trata.

Como o veterinário confirma que é doença do carrapato?

O veterinário confirma a doença do carrapato juntando três coisas: o histórico do cachorro, o exame físico e o exame de sangue (Unesp, 2013).

veterinário de luvas e máscara examinando a cabeça de um cachorro caramelo na clínica

No hemograma, o achado que costuma acender a luz amarela é a queda de plaquetas, muitas vezes junto de anemia e de queda nos glóbulos brancos (Revista da FAG).

A confirmação vem de testes específicos: os sorológicos, que procuram os anticorpos que o corpo produziu, e o teste molecular, que procura o material genético do próprio causador (Unesp, 2013).

Vale saber de uma limitação antes de ouvi-la no balcão. No cachorro que está há muito tempo com aquilo quieto por dentro, encontrar o causador no sangue fica difícil, porque ele está em quantidade muito menor (UNIBRA, 2022).

Na prática, isso significa que um exame só nem sempre encerra o assunto. Se o veterinário pedir para repetir, não é enrolação.

Confirmado o nome, aparece a pergunta que é difícil de fazer em voz alta.

A doença do carrapato pode matar o cachorro?

A doença do carrapato pode matar o cachorro, e o risco é maior nos idosos e nos filhotes de três a quatro meses, em que o quadro pode se agravar rapidamente (UNIBRA, 2022).

No adulto saudável, o caminho perigoso costuma ser o silencioso, aquele que só aparece quando o rim já foi afetado, como descreve a pesquisa da Unesp citada acima.

Isso não quer dizer que todo cachorro com carrapato vai morrer, e não é esse o ponto. O ponto é que esperar para ver é a estratégia que dá errado aqui, porque o quadro foi feito para parecer resolvido.

O que muda o desfecho, nos dois casos, é o tempo entre o primeiro sinal estranho e a primeira consulta.

Não é um número que dê para decorar, e sim um hábito: cachorro que teve carrapato e mudou de comportamento vai ao veterinário, mesmo que o carrapato tenha sumido há semanas.

Fica de pé, então, a dúvida de quem tem outro cachorro em casa, ou criança pequena.

A doença do carrapato passa para humanos ou para outro cachorro?

A doença do carrapato não passa de um cachorro para outro por convivência, e não passa do cachorro para você. O caminho é a saliva do carrapato, no momento em que ele se alimenta do sangue (Unesp, 2013).

Ou seja, o cachorro doente não é o perigo para o outro cachorro da casa. O perigo é que os dois andam no mesmo quintal, com os mesmos carrapatos.

Há uma exceção que vale conhecer se o seu cachorro for doador de sangue: a babesiose pode ser transmitida por transfusão, e por isso cães doadores são testados antes (UNIBRA, 2022).

Para as pessoas, quem oferece risco é o carrapato em si, que pica gente também e transmite outras coisas.

Essa parte está explicada no artigo sobre carrapato em cachorro, junto do que fazer depois de um passeio no mato.

Entendido o caminho, sobra o que fazer com o cachorro que já está doente.

O que fazer quando o cachorro é diagnosticado?

Quando o cachorro é diagnosticado, o seu trabalho é contar a história direito, ir até o fim e voltar para reavaliar.

A história vale mais do que parece. Leve a data em que você encontrou carrapato, mesmo que faça meses, e diga tudo que o cachorro já tomou nos últimos tempos, inclusive o que foi dado por conta própria.

O que não fazer

  • Não pare quando ele melhorar. Melhorar é o que esse quadro faz de mais traiçoeiro
  • Não use sobra de outro cachorro. O que serviu para o vizinho foi calculado para o peso e o caso dele
  • Não dê nada de farmácia humana. Nada entra sem alguém ter examinado o cachorro
  • Não troque a consulta por um antipulgas. Ele impede o próximo carrapato e não faz nada contra o que já está lá dentro

Se o cachorro também estiver com coceira constante sem que ninguém ache pulga, vale citar isso na consulta. São coisas separadas, e quem junta os pontos é quem está vendo o bicho.

Resolvido o agora, resta a parte que evita a segunda vez.

Como evitar que o cachorro pegue de novo?

Evitar que o cachorro pegue de novo é impedir o carrapato, porque é ele quem carrega isso de um bicho para outro (Unesp, 2013).

Na prática, isso é produto no cachorro e controle do lugar onde o carrapato se reproduz, e não uma vacina.

É mais trabalhoso do que parece, porque a maior parte dos carrapatos não está no cachorro: está na fresta, no rodapé e no canto onde ele dorme. Por isso é tão comum o cachorro já curado pegar de novo no mesmo quintal onde pegou antes.

A escolha entre coleira, pipeta e comprimido, e o que fazer com a casa, está comparada em detalhe no artigo sobre carrapato em cachorro.

Nenhum deles age no que já está dentro do cachorro, e nenhum substitui a consulta. Ele impede o próximo carrapato, e é só isso que ele faz. No cachorro que está sendo acompanhado, quem escolhe é o veterinário do caso.

O mais difícil aqui não é o comprimido. É acreditar no que não dá para ver: um cachorro que voltou a correr no quintal pode ainda estar infectado, e é por isso que o retorno ao veterinário vale tanto quanto a primeira consulta.

Perguntas rápidas

Existe vacina contra a doença do carrapato em cachorro?
O que protege o cachorro é o controle do carrapato, e não uma vacina: produto no animal e limpeza do lugar onde ele se reproduz. Como quem transmite é o carrapato, é nele que se age.
Dá para tratar a doença do carrapato em casa?
Não. O tratamento depende de saber qual das doenças é, e isso só o exame de sangue responde. Remédio dado por conta própria atrasa o diagnóstico e trata algo que ninguém confirmou.
Como a doença do carrapato se chama de verdade?
Depende de qual delas é. As duas mais comuns por aqui são a erliquiose e a babesiose, e o veterinário passa a usar o nome específico depois do exame.
A doença do carrapato é contagiosa entre cachorros?
Não por convivência. Um cachorro doente não transmite ao outro dividindo casa, pote ou brincadeira. O que os dois dividem é a exposição aos mesmos carrapatos.
Quanto tempo depois da picada aparecem os primeiros sinais?
Não é no dia seguinte: costuma levar semanas. É essa demora que faz quase ninguém ligar o cachorro adoentado ao carrapato que tirou tempos atrás.
Cachorro que não quer comer pode estar com doença do carrapato?
Pode, mas falta de apetite sozinha não diz qual é o problema, porque aparece em muita coisa. O que aumenta a suspeita é ter havido carrapato nas semanas anteriores.
Filhote com doença do carrapato é mais grave?
Costuma ser. Filhotes e cachorros idosos podem piorar mais rápido, então qualquer sinal neles é motivo de consulta no mesmo dia, não de esperar para ver.
A doença do carrapato pode voltar depois de tratada?
Pode, de duas formas diferentes: o cachorro é picado de novo e pega uma infecção nova, ou a infecção antiga nunca foi eliminada por completo. Quem distingue as duas é o veterinário.
A doença do carrapato do cachorro passa para pessoas?
Não pelo contato com o cachorro. O que alcança as pessoas é o próprio carrapato, que pica e transmite outras doenças a quem for picado.

Fotos de Mikhail Nilov, no Pexels. Outras imagens geradas por IA.